A recente mobilização de crianças e adolescentes dentro do jogo Roblox, que resultou em ataques coordenados ao influenciador, Felca, reacendeu um debate urgente sobre a vida emocional das crianças no ambiente digital. O episódio foi tema do PodChegar desta segunda-feira (26), com a participação da educadora parental Thelma Nascimento, autora do livro “Me escuta?”, obra que convida os adultos a repensarem a forma como se relacionam com as infâncias.
Durante a entrevista, Thelma destacou que, para muitos adultos, o que acontece nos jogos online ainda é visto como “exagero” ou simples brincadeira de internet. Para crianças e adolescentes, no entanto, esses espaços funcionam como verdadeiros territórios emocionais, onde são construídos identidade, pertencimento, reputação, alianças e também onde se vivenciam rejeições, frustrações, humilhações e disputas de poder.
Segundo a educadora, conflitos que explodem no ambiente digital não surgem do nada. Eles são resultado de emoções acumuladas que não encontraram espaço seguro para serem expressas no mundo adulto. “Para muitas crianças, o jogo é o lugar onde elas se sentem vistas, reconhecidas e ouvidas. Quando isso falta em casa ou na escola, o digital vira palco e, às vezes, trincheira”, afirmou.
O caso envolvendo o Roblox também expõe, de acordo com Thelma, uma falsa sensação de segurança comum entre pais e responsáveis: a ideia de que, por a criança estar dentro de casa, ela estaria automaticamente protegida. “O que acontece na tela atravessa o emocional, molda valores, ativa gatilhos e constrói narrativas internas”, alertou. Outro ponto sensível é o efeito coletivo desses ambientes, onde crianças e adolescentes aprendem rapidamente a se organizar em grupo, criar discursos, atacar, defender, silenciar ou cancelar, muitas vezes sem que nenhum adulto perceba.
Ao longo da conversa, a educadora reforçou que o maior risco não está apenas no conteúdo acessado, mas na ausência de escuta, presença e diálogo. Quando a criança sente que não pode falar, que será julgada ou minimizada, ela tende a buscar validação onde encontra e, hoje, esse lugar é o digital. “Mais do que vigiar telas, o desafio dos adultos é construir vínculo. Criança que é escutada não precisa gritar. Criança que é acolhida aprende a lidar com frustração. Criança que confia, conta”, resumiu.
Thelma também falou sobre a diferença entre controle parental e presença parental consciente. Para ela, não se trata de abolir a tecnologia, já que as crianças são nativas digitais, mas de desenvolver curiosidade genuína sobre o “mundinho” delas. Sentar ao lado por alguns minutos, perguntar sobre o jogo, o vídeo ou o programa assistido e demonstrar interesse real são atitudes simples que fazem diferença. “As crianças adoram contar as coisas. A gente precisa aprender a escutar”, destacou.
Outro ponto abordado foi a dificuldade das crianças em nomear emoções como tristeza, raiva e frustração. Nesse processo, o papel do adulto é fundamental. Segundo a educadora, as crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso. Reconhecer os próprios sentimentos, falar sobre eles e validar o que a criança sente ajuda a construir segurança emocional. “Quando dizemos ‘você parece triste, é isso que está sentindo?’, já estamos ensinando”, explicou, ao relatar experiências pessoais com o próprio filho.
Ao falar sobre situações em que a proibição do uso de telas precisa acontecer de forma urgente, por questões de segurança, Thelma defendeu que a observação atenta do comportamento da criança e o diálogo contínuo são essenciais para minimizar impactos emocionais. Mesmo conversas curtas, feitas no cotidiano, ajudam a criar um espaço de confiança dentro da família.
A entrevista também trouxe uma reflexão sobre ciclos geracionais. Para a educadora, muitos adultos não foram escutados quando crianças e, por isso, têm dificuldade de oferecer escuta hoje. “Somos uma geração que está aprendendo para poder ensinar”, afirmou. Segundo ela, muitas vezes as crianças não pedem brinquedos ou atividades, mas algo mais simples: presença, explicação, um abraço, a sensação de fazer parte da família.
Encerrando o debate, Thelma reforçou que educação digital não começa em aplicativos de controle parental, mas na conversa, na escuta e na presença real. “Talvez a pergunta que fique não seja ‘o que as crianças estão fazendo online’, mas sim: será que estamos realmente ouvindo o que elas estão tentando dizer?”, provocou.
Texto: Karine Paixão
Imagem gerada por IA


