Após expulsão de MC Guimê e Cara de Sapato do BBB por assédio, especialistas falam da importância de debater o tema

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‘Não é uma brincadeira, um mal-entendido, e é preciso que a gente não silencie. O nosso silêncio protege os homens’, diz uma psicanalista. ‘É importante que a gente não os veja como monstros, mas mais um de nós. Precisamos mudar como cultura, como coletivo’, defende psicólogo.


Expulsão de participantes do BBB traz discussão sobre o consentimento

Expulsão de participantes do BBB traz discussão sobre o consentimento

Esta semana, o comportamento de dois participantes do Big Brother Brasil provocou indignação: MC Guimê e Cara de Sapato assediaram a mexicana Dania Mendez, que tinha entrado algumas horas antes na casa e participava de um intercâmbio, e foram expulsos da casa por descumprir as regras do programa.

O episódio levantou a discussão sobre uma palavra importante quando falamos de relações: consentimento. E acabou reacendendo um debate sobre o que deveria ser óbvio: não é não – e ponto.

As imagens, registradas na festa na madrugada da última quinta (16), são claras: MC Guimê começa a tocar no corpo de Dania, e a mexicana reage ao abuso e empurra o braço dele, mas ele continua. Passa a mão mais uma, duas, três vezes, até que ela se encosta na mesa.

A festa segue, e Cara de Sapato tenta ficar com Dania. Conta que tentou “dar uma bitoca nela” e levou um fora. Mas quando a mexicana vai para o quarto, o lutador deita na cama com ela, puxa o edredom e começa a beijá-la à força. Em outro momento, a imobiliza e força novamente um beijo no pescoço: “Vou lutar meu jiu-jitsu aqui”.

A produção do programa dá um alerta e avisa que é para parar. No entanto, na noite de quinta, Tadeu Schmidt anunciou ao vivo a punição. Após ver as imagens do assédio, a psicanalista Manuela Xavier afirma:

“A gente consegue ver o constrangimento no corpo dela. Ela faz várias tentativas de sair daquilo ali. O corpo dela o tempo inteiro se esquiva. Sabe o clássico ela está sendo legal ou está me dando mole? Ela não estava dando mole para ele, não estava dando abertura. É mais uma expressão da misoginia, né? (…) Não é uma brincadeira, não é um mal-entendido, e é preciso que a gente não silencie. O nosso silêncio protege os homens. O nosso silêncio mantém a lógica do abuso acontecendo”.

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Após a expulsão, a polícia abriu um inquérito por importunação sexual contra MC Guimê e Cara de Sapato. Os dois foram intimados pela Delegacia da Mulher, mas ainda não prestaram depoimento. Ambos foram procurados pelo Fantástico e não quiseram gravar entrevista; preferiram se pronunciar nas redes sociais.

“Eu tenho um grupo terapêutico de homens online, em que a gente está o tempo inteiro discutindo todas as questões das nossas masculinidades, né? É duro, é amargo assumir que nós todos fomos criados nessa cultura que normaliza as violências contra a mulher. Eles estão reproduzindo uma cultura violenta. É importante que a gente não os veja como monstros, mas mais um de nós. Nós todos fazemos parte desse grupo e precisamos mudar como cultura, como coletivo. A gente tem o privilégio de poder assistir a uma cena como essa do BBB e refletir em silêncio: quais foram as vezes que eu importunei uma mulher? Que eu assediei uma mulher? Que eu neguei a essa mulher o direito ao consentimento? Isso é importante”, afirma o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral.

“A legislação brasileira não traz de forma expressa o que vem a ser consentimento. Hoje a gente tem consequências jurídicas descritas no nosso Código Penal para quem pratica o crime de estupro, para quem pratica o crime de importunação sexual, estupro de vulnerável, assédio sexual, mas compreender melhor os limites do “não é não”, do que vem a ser consentimento, é imprescindível pra que a gente avance ainda mais nessa pauta”, defende ela.