Mito ou verdade: é seguro cozinhar com água da torneira?

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Foto: Freepik / DINO

Se muitas pessoas preferem não beber água da torneira devido ao receio de contaminação, na hora de cozinhar a história é outra. É comum que as pessoas recorram a água do registro para preparar os alimentos, em vez da filtrada. Mas a água da torneira é de fato segura para cozinhar?

O GLOBO conversou com especialistas que explicaram que a preferência na realidade deveria ser pela água filtrada. No entanto, garantiram que a da torneira pode sim ser utilizada para cozinhar, desde que seja após ser fervida ou durante o preparo de alimentos que permaneçam muito tempo no fogo.

É o que explica Carolina Lázari, chefe da Seção de Biologia Molecular da Divisão de Laboratório Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e infectologista da Clínica Felippe Mattoso, do Grupo Fleury, no Rio:

— Se for usar a água da torneira para cozinhar, o ideal é que ela tenha sido fervida antes ou que seja utilizada somente naqueles alimentos que vão passar por uma cocção bem prolongada, ou seja, que a água vai ferver bastante junto com ele. Você vai cozinhar um feijão numa panela de pressão, por exemplo, em que a água vai ficar ali fervendo. Mas para os outros alimentos, principalmente aqueles que não vão chegar a ser aquecidos numa temperatura de ebulição, o ideal é usar a filtrada.

O cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, presidente do Instituto de Metabolismo e Nutrição (IMeN), em São Paulo, orienta ainda quanto tempo é preciso aguardar a fervura para que os riscos de contaminação sejam devidamente eliminados: — Quando a água começa a borbulhar é porque ela atingiu 100ºC. Depois, é preciso deixar de 5 a 10 minutos borbulhando para você ter a garantia de que a água está esterilizada. Ela só deve ser usada depois disso.

O problema, explicam, não é a qualidade em si da água que sai da estação de tratamento, mas as condições muitas vezes desconhecidas do encanamento e dos reservatórios onde o líquido fica armazenado. Por isso, o uso da água diretamente da torneira não é recomendado mesmo em locais com boa qualidade de saneamento básico.

— Se houver microfissuras nos canos, por exemplo, pode haver contato com solo contaminado por depósitos de fezes, acondicionamento incorreto de lixo, proximidade com canos de esgoto. Os principais riscos são contaminação com bactérias, que podem causar quadros diarreicos, com cistos de protozoários, como amebas e giárdias, ou com ovos de parasitas, como Ascaris, que é a famosa lombriga — explica Lázari.

A infectologista lembra ainda que o mesmo cuidado deve ser feito na hora de higienizar alimentos que são consumidos crus, como saladas e frutas. Ela explica que até pode ser feita uma primeira lavagem com a água da torneira, mas depois é preciso deixá-los imersos em hipoclorito de sódio ou vinagre, sendo o hipoclorito mais eficaz, para eliminar os microrganismos.

— Isso é ainda mais importante para folhas, que são mais delicadas, e frutas que não conseguimos esfregar, como morangos e uvas — acrescenta.

A premissa é a mesma em relação ao uso da água para beber: não se recomenda que ela seja ingerida diretamente da torneira sem que antes seja ou fervida ou filtrada. Uma boa notícia é que tanto o ato de fervê-la, como o de passá-la pela filtragem, não eliminam o flúor – substância adicionada desde os anos 70 de forma obrigatória no Brasil durante o tratamento de água para evitar cáries na população.

Um estudo de pesquisadores da Faculdade de Odontologia da Unicamp (FOP) em Piracicaba (SP), publicado em 2019 na revista científica Caries Research, mostrou que mesmo o consumo dos alimentos cozinhados com água fluoretada já eleva a concentração do composto na saliva. A estratégia já foi associada a uma redução de até 65% das cáries a nível populacional.

(Agência O Globo)