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Rita Lee despede-se em clima astral e encantado: ‘Ela é luz’, definiram amigos e familiares no velório no planetário

‘Nem luxo, nem lixo’, se seu sonho era ser imortal, foi realizado com sucesso, e sob aplausos e cores no final da noite no Parque Ibirapuera, um dos seus lugares preferidos na Terra.


Planetário do Ibirapuera ao final do velório do corpo de Rita Lee — Foto: Camila Quaresma/g1

Planetário do Ibirapuera ao final do velório do corpo de Rita Lee — Foto: Camila Quaresma/g1

Um ponto de luz discreto brilhava acima do caixão de Rita Lee. Era preciso olhar atentamente para encontrá-lo. A família, na sua despedida, usava um adesivo de estrelinha grudado no lado direito do peito. Luz e estrela foram os adjetivos mais usados para descrever a artista. Seja pelo pintor e escultor Antonio Peticov ou pelo fã com a camiseta do Chorão e olhos marejados.

No planetário do Ibirapuera, onde o velório do corpo da cantora foi realizado, duas entradas: uma para familiares e amigos e outra para os fãs que enfrentavam uma fila. Alguns cantando. Alguns chorando. Alguns usando adereços que lembravam Rita. Na sala onde aconteceu o velório, o silêncio se sobressaía entrecortado por soluços.

Do lado de fora, o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT) lembrou de um momento com a cantora quando cantaram juntos pela paz. Perguntado sobre a proibição de políticos no velório, escrita pela cantora em sua primeira autobiografia, Suplicy riu: “Sou amigo”.

Do outro lado, o apresentador Serginho Groisman falava sobre a letra de “Reza”. Uma coroa de Caetano Veloso e Paula Lavigne chegou em torno das 13h. Quem chegava no portão dos familiares passava por uma lista – quem não estava, telefonava para João Lee. O filho deu mais de vinte voltas e recebia todos com um abraço. De fala tranquila, era quem resolvia tudo. Contou que muitos projetos envolvendo a mãe estão em andamento. Horas depois confessou que estava exausto, “no automático”.

Famosos velório Rita Lee — Foto: Celso Tavares/g1

Famosos velório Rita Lee — Foto: Celso Tavares/g1

Muitos famosos

Duas fãs plantadas perguntavam pelos famosos. “Não vi o Casagrande, que pena”. Esperavam por Paulo Ricardo, que não estava na lista. Aguardada, Xuxa chegou acompanhada do marido Juno e do seu cãozinho. Conversou com a família do lado de fora e depois entrou. Na saída, gritos. Uma fã contou que pegou na mão da rainha dos baixinhos, embora os vidros estivessem fechados.

Demonstrações diversas de carinho eram vistas pela cerimônia. Um fã cantava um trecho da música “Tudo vira bosta”. Um trio passava com as roupas usadas no primeiro disco dos Mutantes. “A vida fica mais difícil sem ela”, lamentou um fã.

“Uma avó com um lado infantil muito aflorado. Eles [Arthur e a vó Rita] eram muito próximos, se divertiam muito juntos”, contou a escritora Camila Fremder. “A noite a gente rezava pra vovó Ritinha”, disse a mãe de Arthur e ex-nora de Rita.

Lista da entrada VIP — Foto: Claudia C.Branco

Lista da entrada VIP — Foto: Claudia C.Branco

A constelação de Rita Lee

Carl Sagan costumava comparar um telescópio a uma máquina do tempo: não é possível olhar uma estrela sem olhar o passado. Leva tempo para que a luz das estrelas chegue até nós. A de Rita já brilha há 75 anos.

E ao depender da despedida, se a artista fosse uma constelação, suas estrelas seriam todas diferentes, cada uma com seu brilho, passado e história.

Xuxa, Wanessa, até um homem fantasiado de Zorro. “Ela mandava uns áudios assim: ‘manda todo mundo se foder: você é você e pronto’”, conta Luisa Mell.

Na constelação de Rita, também brilhavam Pedro Bial, Daniela Cicarelli, Rita Cadillac e Otávio Mesquista que lembrou de quando a cantora pediu seu nome para fazer um programa. “Eu respondi que não sabia e perguntei o que ganharia. Ela disse ‘nada’, me deu um beijo na testa e saiu rindo”.

Estrelas do tamanho de Antonio Petkov, Serginho Groisman, Paula Lima. Estrelas como a de um cover de Roberto Carlos, de pelo menos três pessoas que sempre vão a velórios de famosos e de fãs que viajaram horas para estar ali.

As três filhas de Fernanda Young falaram de quando a mãe gravava o “Saia Justa”, do GNT, na temporada em que Rita fez parte. “As duas juntas eram ótimas”. Maria Rita, Malu Mader e Sarah Oliveira. Cada um com uma história para contar sobre Rita Lee.

E por que o planetário e não um velório na Assembleia Legislativa? Rita escreveu, em mais de uma música, sobre o universo, como em “o que será esse tal de rock and roll. Um planeta? Um deserto? Isso ninguém nunca falou”.

E o que acontece quando uma estrela morre? No caso de Rita, segue brilhando. “Ela está muito viva”, afirmou Marina Lima, emocionada, ao g1.

“Nem luxo, nem lixo”, se seu sonho era ser imortal, foi realizado com sucesso, e sob aplausos e cores no final da noite num Ibirapuera encantado. O corpo de Rita seguiu para o crematório em torno das 19h37. Fãs se despediram ao som de “Ovelha Negra”.

Fãs cantam no Parque Ibirapuera ao fim do velório de Rita Lee